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Empresários cobram estabilidade econômica e juros menores; o que a política brasileira muda para as empresas

Pressão do setor produtivo por previsibilidade ocorre em meio a juros elevados, eleições e desaceleração da atividade econômica.

Empresários e banqueiros voltaram a colocar a estabilidade econômica no centro do debate político brasileiro. Em encontro realizado no Palácio da Alvorada nos últimos dias, representantes do setor produtivo relataram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva preocupações com juros elevados, inadimplência, burocracia e segurança institucional. O governo, por sua vez, sinalizou compromisso com o controle das despesas e com a busca de melhores condições para a economia nos próximos anos.

Para o empresário brasileiro, porém, a questão vai muito além da disputa política. Juros, inflação, câmbio, regras tributárias e confiança institucional interferem diretamente no custo do crédito, no planejamento financeiro, na contratação de funcionários e na decisão de investir. O cenário ganhou ainda mais importância porque as projeções econômicas apontam crescimento moderado do PIB em 2026, enquanto pesquisas mostram perda de confiança empresarial.

Por que os empresários estão cobrando mais estabilidade econômica

A principal preocupação do setor empresarial é a previsibilidade. Uma empresa pode conviver com juros altos ou com determinado nível de tributação por algum tempo, mas tem mais dificuldade para planejar quando as regras mudam rapidamente ou quando existe incerteza sobre a direção da política econômica. No encontro com Lula, empresários destacaram justamente a necessidade de estabilidade para que investimentos de longo prazo possam ser mantidos, especialmente em setores estratégicos.

Esse ponto ganha força entre pequenas e médias empresas, que normalmente possuem menos acesso a capital barato e menor margem para absorver aumentos de custos. Quando o crédito fica caro, o empreendedor pode adiar a compra de máquinas, a abertura de uma unidade ou a contratação de funcionários. A própria Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que juros elevados, instabilidade fiscal e complexidade tributária estão entre os fatores que limitam o crescimento e a competitividade das empresas brasileiras.

O ambiente de confiança também merece atenção. O Índice de Confiança Empresarial do FGV IBRE recuou 0,5 ponto em agosto, para 91,1 pontos, registrando o segundo mês consecutivo de queda. Segundo a instituição, eleições nacionais, tarifas norte-americanas, enfraquecimento da demanda e incertezas econômicas contribuíram para o resultado.

Na prática, isso significa que o empresário precisa acompanhar política e economia como parte da gestão do negócio. Uma decisão sobre expansão, financiamento ou contratação não depende apenas das vendas atuais, mas também da percepção sobre inflação, juros, consumo e regras que podem afetar a empresa nos próximos meses.

Juros altos continuam sendo um problema para empresas e consumidores

A política monetária é outro ponto central para entender a pressão dos empresários. A economia brasileira cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, desacelerando em relação aos 1,1% registrados nos três primeiros meses do ano. Ao mesmo tempo, o consumo das famílias recuou 0,4%, sinalizando que o custo elevado do dinheiro já influencia a demanda interna.

Para uma empresa, o efeito aparece em diferentes áreas. O financiamento de capital de giro fica mais caro, o parcelamento de investimentos exige maior desembolso e consumidores endividados podem reduzir compras. Mesmo negócios que não possuem grandes empréstimos podem sentir o impacto, porque clientes e fornecedores também enfrentam condições financeiras mais restritivas.

O cenário ajuda a explicar por que a redução dos juros aparece entre as reivindicações do setor produtivo. A taxa básica ainda está em patamar elevado, enquanto as projeções de mercado indicam crescimento econômico moderado para 2026. O Boletim Focus citado nas divulgações desta semana aponta expectativa de PIB de 1,93% e inflação de 5% neste ano.

Para o pequeno empresário, entretanto, esperar simplesmente por uma queda da Selic não é suficiente. A gestão financeira precisa considerar diferentes cenários, evitando comprometer o caixa com dívidas caras e priorizando investimentos capazes de gerar retorno mensurável. Em momentos de juros elevados, controle de custos, planejamento de fluxo de caixa e negociação com fornecedores ganham importância estratégica.

O que o empresário deve acompanhar no cenário político de 2026

O ambiente político também influencia as decisões empresariais porque 2026 é um ano eleitoral. As pesquisas e as perspectivas para a sucessão presidencial já aparecem entre os fatores observados pelos mercados, contribuindo para movimentos no dólar e na Bolsa. Nesta terça-feira, por exemplo, o dólar iniciou o pregão próximo de R$ 5,09, enquanto o Ibovespa avançava, em meio à repercussão do cenário eleitoral e à valorização de commodities.

Isso não significa que o empresário deva tentar antecipar quem vencerá a eleição. A estratégia mais segura é acompanhar propostas que possam alterar impostos, crédito, legislação trabalhista, comércio exterior, investimentos públicos e regras setoriais. Para uma pequena empresa, mudanças aparentemente distantes de Brasília podem chegar ao caixa por meio de custos maiores, alteração da demanda ou novas obrigações.

Outro tema que merece atenção é a política fiscal. O governo apresentou a proposta de Orçamento de 2027 com previsão de superávit primário de R$ 18,6 bilhões, ao mesmo tempo em que mantém no debate a necessidade de controle das despesas públicas. A percepção sobre a trajetória das contas públicas pode influenciar expectativas de inflação, juros e câmbio, fatores que afetam diretamente o custo de operação das empresas.

Também está em curso uma transformação tributária que exige planejamento empresarial. O Ministério da Fazenda informou que as empresas têm até 30 de setembro para solicitar ingresso no Simples Nacional e definir a forma de recolhimento dos novos tributos relacionados à Reforma Tributária sobre o Consumo em 2027. Para o empreendedor, acompanhar essas mudanças com contador e planejamento financeiro pode ser tão importante quanto observar as eleições.

O momento exige, portanto, uma postura menos baseada em apostas políticas e mais orientada por cenários. Empresários podem acompanhar indicadores de inflação, juros, confiança, consumo e atividade econômica, além das decisões do Congresso e do governo que afetem seus setores. A combinação desses dados permite identificar riscos com antecedência e tomar decisões mais responsáveis sobre crédito, estoque, contratação e investimentos.

O recado mais importante do atual cenário político-econômico é que previsibilidade se tornou um ativo para as empresas. Com confiança empresarial em queda, juros ainda elevados e crescimento mais moderado, decisões tomadas sem planejamento podem pressionar ainda mais o caixa.

Para o empresário brasileiro, acompanhar a política não significa transformar a gestão em disputa partidária. Significa entender como decisões sobre juros, orçamento, impostos, comércio exterior e regulação podem alterar o ambiente de negócios. Em um ano eleitoral, essa leitura será especialmente importante para que PMEs, startups e empresas maiores consigam ajustar seus planos, preservar liquidez e aproveitar oportunidades quando as condições econômicas melhorarem.

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