Tecnologia

Inteligência artificial já está em metade das empresas brasileiras: o que muda para PMEs e empreendedores

Adoção de IA chegou a 50% das empresas no Brasil, mas poucos negócios avançaram para aplicações capazes de transformar processos e modelos de negócio.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma aposta tecnológica e passou a fazer parte da rotina de uma parcela significativa das empresas brasileiras. Um estudo da Strand Partners encomendado pela Amazon Web Services (AWS) e divulgado em 3 de setembro mostra que 50% das empresas do país já utilizam IA, contra 40% no levantamento anterior. O número equivale a cerca de 12 milhões de negócios e coloca a tecnologia no centro das decisões de produtividade, atendimento, análise de dados e inovação.

Para o empresário, porém, o dado mais importante não é simplesmente saber que a IA está crescendo. A questão é entender como usar inteligência artificial para gerar resultado, sem transformar o investimento em uma despesa difícil de justificar. A mesma pesquisa revela que somente 15% das empresas que adotaram IA chegaram ao estágio avançado, enquanto 58% ainda utilizam recursos básicos.

O cenário cria uma oportunidade especialmente relevante para pequenas e médias empresas. Com ferramentas cada vez mais acessíveis, a diferença competitiva tende a estar menos na possibilidade de contratar tecnologia e mais na capacidade de identificar processos que podem ser melhorados, medir resultados e preparar equipes para trabalhar com novas ferramentas.

Metade das empresas já usa IA, mas a maioria ainda está no começo

A expansão da inteligência artificial no ambiente empresarial brasileiro mostra que a discussão mudou de patamar. Segundo o levantamento da AWS e da Strand Partners, 50% das empresas brasileiras já utilizam algum tipo de IA, ante 40% anteriormente, mas 58% dessas companhias ainda estão no nível básico de adoção. Nesse estágio, a tecnologia costuma ser empregada para ganhos incrementais de eficiência, como apoio à produção de textos, pesquisas, organização de informações e outras tarefas rotineiras. Apenas 27% estão no nível intermediário, integrando IA a produtos e serviços, enquanto 15% alcançaram o estágio avançado, associado à transformação de processos ou criação de novos modelos de negócio.

Essa diferença é importante para o pequeno empresário porque mostra que simplesmente “ter IA” não significa necessariamente obter uma vantagem competitiva relevante. Uma empresa que usa uma ferramenta generativa ocasionalmente para escrever mensagens pode ganhar algum tempo, mas o impacto tende a ser maior quando a tecnologia passa a fazer parte de processos estruturados. Atendimento, análise de vendas, organização financeira, marketing, gestão de estoque e suporte interno são exemplos de áreas nas quais a automação pode ser avaliada de acordo com as necessidades de cada negócio. O próprio Sebrae orienta pequenos negócios a enxergar a IA como uma camada de apoio para atividades existentes, com possibilidade de reduzir retrabalho, analisar informações e apoiar decisões.

Para startups, a velocidade de adoção é ainda maior. O mesmo levantamento indica que 68% das startups brasileiras já utilizam IA e 26% delas estão no estágio avançado, proporções superiores às observadas no conjunto das empresas. Isso ajuda a explicar por que negócios mais jovens podem ganhar espaço em mercados tradicionais: desde o início, podem desenhar produtos, atendimento e operações considerando ferramentas digitais como parte da estrutura empresarial.

O desafio agora é provar que a IA traz retorno para a empresa

A próxima pergunta para o empresário não é mais se deve testar inteligência artificial, mas como saber se o investimento está funcionando. Esse é justamente um dos pontos mais frágeis do cenário atual: apenas 33% das empresas dizem confiar na própria capacidade de medir com precisão o retorno sobre investimentos em IA, enquanto somente 28% contam com uma metodologia formal e consistente para avaliar os resultados. Ao mesmo tempo, 72% relatam ganhos de produtividade e 54% percebem aumento de receita associado ao uso da tecnologia.

A falta de métricas pode levar empresas a gastar dinheiro em ferramentas que parecem modernas, mas não resolvem problemas importantes. Para uma PME, esse cuidado é ainda mais relevante porque orçamento, equipe e tempo são recursos limitados. Antes de contratar uma solução, o gestor pode definir um problema específico, estabelecer um indicador e comparar o desempenho antes e depois da implementação; em atendimento, por exemplo, pode acompanhar tempo de resposta, volume de solicitações resolvidas e satisfação dos clientes. A lógica é transformar a IA em projeto de gestão, e não simplesmente em uma assinatura adicional de software.

Um exemplo recente mostra como a tecnologia pode ser associada a um indicador operacional concreto. A B3 informou em 4 de setembro que oficializou uma ferramenta de IA para desenvolvimento de software depois de testes realizados pelas equipes de engenharia, com redução aproximada de 35% no tempo de entrega de aplicações. A solução passou a apoiar cerca de 600 colaboradores responsáveis pela produção de aproximadamente 1,5 milhão de linhas de código por mês.

Para empresas menores, isso não significa que seja necessário copiar o investimento ou a estrutura de uma grande organização. A principal lição é estabelecer uma relação clara entre tecnologia e resultado: reduzir horas gastas em tarefas repetitivas, melhorar conversões, diminuir erros, acelerar respostas ou apoiar decisões. O Sebrae também destaca que a IA pode ser incorporada gradualmente aos pequenos negócios, começando por gargalos específicos em vez de exigir um grande projeto tecnológico desde o início.

PMEs precisam combinar tecnologia, pessoas e segurança

A adoção acelerada também traz um alerta para empresários que pretendem ampliar o uso de inteligência artificial. O levantamento da AWS mostra que a escassez de habilidades digitais e de IA está entre os principais obstáculos para as organizações, enquanto limitações técnicas e de dados também dificultam a evolução para aplicações mais sofisticadas. Apenas 21% das empresas brasileiras se consideram totalmente ou muito preparadas para tecnologias mais avançadas, como sistemas de IA capazes de executar tarefas com maior autonomia.

Isso significa que comprar uma ferramenta não resolve sozinho o problema. O empresário precisa preparar funcionários para utilizá-la corretamente, definir quais informações podem ser inseridas nos sistemas, revisar resultados produzidos automaticamente e estabelecer responsabilidades quando uma decisão envolver dados importantes. Em setores que lidam com informações financeiras, comerciais ou pessoais, segurança e governança precisam acompanhar a expansão da tecnologia. Para uma PME, uma política simples de uso interno, treinamento básico e revisão humana já pode reduzir riscos e evitar que a busca por produtividade crie novos problemas.

O momento também favorece quem começa de maneira organizada. O Sebrae vem ampliando iniciativas voltadas à aplicação prática de IA em pequenos negócios, com capacitações que abordam automação, atendimento, marketing, análise de informações e tomada de decisões. A oferta de oficinas específicas para pequenos empresários em setembro de 2026 mostra que a tecnologia já está sendo tratada como ferramenta de gestão, e não apenas como assunto restrito aos departamentos de tecnologia.

Para o empreendedor brasileiro, portanto, a principal oportunidade está em transformar a inteligência artificial em produtividade mensurável. A empresa não precisa começar tentando criar um sistema sofisticado ou substituir processos inteiros de uma vez; pode escolher uma atividade que consome tempo, testar uma solução, acompanhar os resultados e ampliar o uso conforme os ganhos forem comprovados. Essa abordagem reduz riscos e permite que negócios menores avancem sem perder o controle da operação.

O cenário de setembro de 2026 deixa uma mensagem clara: a corrida pela adoção da IA já começou, mas ainda existe uma distância relevante entre experimentar ferramentas e utilizá-las estrategicamente. Com metade das empresas brasileiras já usando a tecnologia, a vantagem tende a migrar para quem consegue combinar pessoas capacitadas, processos bem definidos, segurança de dados e métricas de desempenho. Para PMEs e empreendedores, o desafio não é acompanhar cada novidade do mercado, mas descobrir onde a IA pode resolver problemas reais e gerar retorno.

Fontes utilizadas

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo