Tecnologia

PMEs brasileiras já usam inteligência artificial, mas maioria ainda não sabe tirar proveito real da tecnologia

O abismo entre a expectativa e a prática

Boa parte dos pequenos e médios empresários brasileiros já entendeu que a inteligência artificial deixou de ser um experimento distante e passou a fazer parte da rotina de quem quer se manter competitivo. Um levantamento do G4 Educação, divulgado recentemente, mostra que 59% dos empresários consideram a IA uma prioridade estratégica para este ano, mas apenas 22% afirmam utilizar a tecnologia de forma estruturada dentro de suas operações. Esse contraste revela o que especialistas vêm chamando de abismo de execução tecnológica: as empresas reconhecem o potencial da ferramenta, mas ainda tropeçam na hora de transformar essa intenção em processos concretos de negócio.

Dados complementares reforçam esse retrato. Uma pesquisa da Microsoft apontou que 75% das PMEs brasileiras estão otimistas quanto ao impacto da IA em seus resultados, enquanto um levantamento do Sebrae indica que 44% dos pequenos empreendedores já utilizam algum tipo da tecnologia no dia a dia. Ainda assim, 53% dos empresários reconhecem a importância da ferramenta, mas dizem não saber como implementá-la corretamente, e 38% afirmam operar ainda de forma artesanal, com planilhas e processos dependentes de pessoas-chave dentro da empresa. É esse descompasso entre reconhecimento e maturidade que tem movimentado o debate entre consultores e associações do setor.

Onde a inteligência artificial já está sendo usada na prática

Quando se olha para o uso concreto da ferramenta, a IA tem sido aplicada principalmente em áreas operacionais e de relacionamento com o cliente. Segundo dados do Sebrae, entre as PMEs que já utilizam a tecnologia, 51% recorrem a plataformas como ChatGPT, Gemini, Copilot ou DeepSeek quando questionadas diretamente sobre quais ferramentas usam. Os chatbots no WhatsApp aparecem em 41% dos casos, enquanto ferramentas de geração de imagem são citadas por 44% das empresas e os chatbots de vendas por 30%. Isso mostra que a maioria dos pequenos negócios já está usando exatamente as categorias de ferramentas mais conhecidas do mercado, o que sugere que o desafio não é mais de descoberta, mas de método na hora de colocar a tecnologia em prática.

Uma pesquisa da Serasa Experian, realizada entre maio e junho com 1.565 pequenas e médias empresas de todo o país, mostra que 58,7% das companhias que já utilizam ou pretendem adotar a IA apontam o ganho de produtividade como o principal benefício percebido. A automação de processos, a redução de custos e a melhoria no atendimento ao cliente também aparecem entre as vantagens mais citadas pelos empresários consultados. Por outro lado, o mesmo levantamento identificou que a falta de conhecimento sobre as soluções disponíveis é o principal obstáculo para ampliar o uso da tecnologia, mencionado por 41,3% das empresas ouvidas.

Os custos em nuvem e a busca por soluções mais econômicas

Um fator que vem ganhando peso nas discussões sobre adoção de IA nas PMEs é o custo operacional associado ao uso intensivo de recursos em nuvem. À medida que o uso de plataformas baseadas em grandes modelos de linguagem cresce dentro das empresas, o consumo de infraestrutura tecnológica aumenta na mesma proporção, o que pode se tornar um problema para negócios com orçamento mais apertado. Diante desse cenário, especialistas apontam que soluções mais enxutas, como os chamados pequenos modelos de linguagem, surgem como alternativas viáveis e economicamente mais sustentáveis para o pequeno empresário que quer usar a tecnologia sem comprometer o caixa.

Um relatório global encomendado pela SAS em parceria com a IDC reforça esse cenário de transição: quase 70% das pequenas e médias empresas em todo o mundo ainda se encontram em estágios experimentais ou oportunistas de maturidade em inteligência artificial, mesmo com o crescimento constante dos investimentos na área. O levantamento aponta um descompasso relevante entre a ambição das empresas em adotar a tecnologia e a capacidade real de escalar esse uso com governança adequada e retorno mensurável sobre o investimento, o que reforça a importância de um planejamento cuidadoso antes de qualquer adoção em larga escala.

O caminho para transformar potencial em resultado

Especialistas consultados por veículos de tecnologia e negócios são unânimes em um ponto: a inteligência artificial só entrega resultado consistente quando está integrada a um processo maduro e compreendido pela liderança da empresa. Isso significa que antes de investir em qualquer ferramenta, o empresário precisa mapear qual problema específico do seu negócio deseja resolver, para então buscar a solução mais adequada àquela necessidade, evitando a tentação de adotar tecnologia apenas por modismo. A automação tecnológica sem esse planejamento tende a gerar frustração e desperdício de recursos, em vez de resolver os gargalos operacionais que motivaram a busca pela ferramenta em primeiro lugar.

Para o empresário brasileiro que ainda hesita entre investir ou não em inteligência artificial, o cenário atual traz um recado direto: a tecnologia já não é mais restrita às grandes corporações e se tornou, segundo especialistas, uma peça de sobrevivência competitiva também para os pequenos negócios. O desafio não está mais em provar que a IA funciona, e sim em construir, com calma e método, a ponte entre a ferramenta disponível e o resultado prático que ela pode gerar dentro de cada operação. Empresas que conseguirem atravessar esse processo de maneira estruturada tendem a sair na frente em um mercado que se torna, a cada mês, mais movido por dados e automação.

Fontes consultadas:

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