Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico radiologista e ex-secretário de Saúde, nota que a ideia de prevenção esteve associada à realização do maior número possível de exames. Para muitas pessoas, fazer check-ups frequentes e solicitar diferentes testes parecia representar um cuidado mais completo com a saúde. Entretanto, a medicina baseada em evidências mostrou que essa lógica nem sempre produz melhores resultados. Em determinadas situações, exames realizados sem indicação clínica podem gerar diagnósticos equivocados, procedimentos desnecessários, aumento da ansiedade e até tratamentos que poderiam ter sido evitados.
Essa mudança de perspectiva deu origem ao conceito de saúde baseada em valor (Value-Based Healthcare), um modelo que busca oferecer o cuidado mais adequado para cada paciente, considerando não apenas a quantidade de exames realizados, mas principalmente os benefícios clínicos que eles proporcionam. Em vez de perguntar “quantos exames foram feitos?”, a medicina moderna passou a questionar: “esse exame realmente melhora o cuidado do paciente?”. Essa mudança está transformando protocolos internacionais, influenciando políticas públicas e redefinindo o papel do diagnóstico por imagem.
Mais exames nem sempre significam melhores resultados
Na medicina, toda decisão envolve um equilíbrio entre benefícios e possíveis riscos. Um exame pode identificar precocemente uma doença e aumentar as chances de tratamento, mas também pode gerar resultados falso-positivos, revelar alterações sem relevância clínica ou levar a investigações invasivas que poderiam ter sido evitadas. Por esse motivo, a indicação de um exame nunca deve ser baseada apenas na disponibilidade da tecnologia.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, um dos maiores desafios da prática médica atual é evitar tanto a falta quanto o excesso de investigação. Exames desnecessários podem aumentar custos, prolongar o tempo até o diagnóstico definitivo e expor pacientes a procedimentos complementares sem benefício comprovado. Por outro lado, deixar de investigar uma situação que realmente exige avaliação também representa um risco. A decisão correta depende da análise cuidadosa do contexto clínico de cada pessoa.
O que significa saúde baseada em valor?
O conceito de saúde baseada em valor surgiu para substituir um modelo tradicionalmente focado no volume de atendimentos por outro orientado pelos resultados alcançados pelos pacientes. Em vez de medir a qualidade da assistência pelo número de consultas, procedimentos ou exames realizados, esse modelo procura avaliar se as decisões médicas realmente melhoraram a saúde, a qualidade de vida e a experiência do paciente ao longo do tratamento.
Na prática, isso significa utilizar os recursos disponíveis de forma mais inteligente. Um exame só deve ser solicitado quando houver evidências científicas de que sua realização pode modificar a conduta médica ou trazer benefícios concretos para aquele paciente. Essa abordagem também contribui para reduzir desperdícios, direcionar investimentos para tecnologias que realmente agregam valor e tornar os sistemas de saúde mais sustentáveis.

Como a medicina baseada em evidências orienta a escolha dos exames?
Quando um médico solicita um exame, essa decisão não deve ser baseada apenas na experiência individual ou na disponibilidade do método diagnóstico. Atualmente, sociedades médicas internacionais elaboram diretrizes fundamentadas em estudos científicos de alta qualidade, indicando em quais situações determinado exame oferece benefícios comprovados e quando sua realização pode não trazer vantagens para o paciente.
Conforme explica o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, esse processo considera fatores como sensibilidade, especificidade, impacto sobre o diagnóstico precoce, risco de resultados falso-positivos, custo-efetividade e influência na definição do tratamento. O objetivo é garantir que cada exame responda a uma pergunta clínica específica. Quando um teste não tem potencial para modificar a conduta médica, sua indicação deve ser cuidadosamente reavaliada.
O radiologista participa muito antes da interpretação das imagens
Muitas pessoas acreditam que o trabalho do radiologista começa apenas quando as imagens aparecem na tela do computador. No entanto, sua atuação também envolve a escolha da estratégia diagnóstica mais adequada para cada situação clínica. Em muitos casos, diferentes exames podem avaliar o mesmo problema, mas apresentam desempenhos distintos conforme a idade do paciente, o tipo de tecido analisado, o histórico clínico e a hipótese diagnóstica.
Para o Dr. Vinicius Rodrigues, selecionar corretamente o método de imagem faz parte da qualidade da assistência. Solicitar uma mamografia, uma ultrassonografia, uma ressonância magnética ou mesmo decidir que nenhum exame adicional é necessário exige conhecimento técnico e análise criteriosa das evidências científicas. A escolha adequada evita investigações desnecessárias, reduz atrasos no diagnóstico e aumenta a eficiência de todo o processo assistencial.
Um novo modelo para pacientes e sistemas de saúde
A adoção da saúde baseada em valor beneficia não apenas quem recebe atendimento, mas também os sistemas público e privado. Em um cenário marcado pelo envelhecimento da população, aumento das doenças crônicas e rápida incorporação de novas tecnologias, utilizar exames de forma criteriosa tornou-se essencial para garantir acesso, sustentabilidade e qualidade da assistência.
Por fim, Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues conclui que o futuro do diagnóstico por imagem não será definido pela quantidade de exames realizados, mas pela capacidade de utilizar a tecnologia de maneira inteligente e personalizada. A medicina baseada em valor propõe justamente essa mudança de paradigma: oferecer o exame certo, para a pessoa certa, no momento certo, garantindo que cada decisão seja sustentada pelas melhores evidências científicas disponíveis e produza benefícios reais para os pacientes.



